Voluntariado com refugiados na Grécia

por | mar 26, 2017

Relato da semana que passei ensinando inglês e fotografia para refugiados sírios em Atenas.

Quando cheguei a Atenas, em dezembro de 2016, e peguei o metrô até Omonia seguido de um táxi para Exarchia, eu não fazia ideia do que me esperava. O que eu sabia é que trabalhos voluntários, em geral, mudam a nossa forma de ver a vida.

Aprendi que quando ele é feito no cerne de crises mundiais, como a dos refugiados, e de forma independente, ele muda a nossa alma.

Atenas

Era véspera de uma data muito importante para anarquistas ao redor do mundo. 6 de dezembro é o aniversário do assassinato de Alexis Grigoropoulos, um estudante grego de 15 anos de idade, que foi morto por policias num protesto em 2008.

Anualmente nessa data, anarquistas protestam em Exarchia, bairro onde fiquei hospedada na capital grega, para que a morte não seja esquecida. É o único dia do ano que policiais se atrevem a entrar no bairro para tentar controlar, ou botar mais fogo, na destruição que vem pela frente.

Mas porque estou falando sobre esse protesto? Porque é justamente em Exarchia, um bairro reconhecidamente anarquista, que a maioria dos refugiados mora após saírem dos campos,  pelo menos até que seus documentos cheguem.

Minha primeira missão como voluntária era estar junto aos refugiados naquele 6 de dezembro, para tranquiliza-los do que estaria por vir. Coisa que nem eu fazia ideia de como seria.

Atenas

O Movimento Anarquista

Protestos anarquistas em Atenas não são como os que vemos no Brasil entre coxinhas x mortadelas. Lá, coquetéis molotov e bombas de efeito moral estouravam por todos os lados. Quebradeira, brigas e gritos se espalhavam pelas ruas.

Um certo pânico tomava muito mais conta de mim, do que dos próprios refugiados. Eles já eram familiarizados com os sons da guerra.

Aquela madrugada com cheiro de gás lacrimogênio, explosões e as estórias de vida mais duras que já ouvi, mudaram a minha forma de ver o mundo pra sempre. 

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O protesto durou horas. Foi uma noite cheia de angustia, mas onde tive meu primeiro contato com a história de vida de cada um. Como a da jovem síria que estava longe do marido há mais de um ano, pois ele já tinha conseguido os papeis para imigrar pra Alemanha, um dos países que mais recebem refugiados uma vez que eles se legalizam,mas ela ainda não.

E também a história do engenheiro, pai de 5 filhos, que tinha um emprego estável em seu país, mas que precisou fugir depois que teve a casa bombardeada e viu seu pai morrer na sua frente.

Naquela noite, eu entendi que deixar sua terra natal não era uma questão de escolha, mas de sobrevivência, mesmo não havendo garantias de que você chegaria vivo do outro lado da fronteira.

Atenas

O auge da crise de refugiados na Europa foi em 2015, quando milhões de pessoas chegaram à Grécia e os campos tinham mais do dobro da sua capacidade.

O número de pessoas que chegam hoje é bem menor, mas ainda assim, a quantidade de refugiados que ainda esperam por seus documentos é gigantesca. E não existe prazo ou garantia de que os documentos chegarão.

Refugiados na Grécia enfrentam péssimas condições de vida e poucas opções de moradia. Nos squats (tipo de ocupação onde eles vivem após saírem dos campos), os pequenos apartamentos não tinham um móvel sequer, apenas tapetes que eram usados como cama e como mesa. Além disso, diversas famílias dividem o mesmo apartamento, sem qualquer privacidade.

Atenas

Pouquíssimos deles falavam inglês. Nossa missão ali era ensinar o básico do básico, como nomes de frutas, cores, roupas, como cumprimentar as pessoas e pedir emprego.

Uma coisa todos tinham em comum, a costumeira hospitalidade síria. Mesmo com pouca comida, dividir a refeição e nos chamar pra comer junto fazia parte da rotina. Mesmo que fosse apenas arroz e pão árabe.

Atenas

É obvio que também há pessoas ruins, mas estão longe de ser a maioria. Muitos meninos acabam se prostituindo ou entrando pro tráfico, como alguns dos garotos pra quem ensinei noções básicas de fotografia.

Alguns deles eram estudantes universitários na Síria e teriam chances promissoras em qualquer lugar do mundo, mas, por motivos que não precisa-se nem explicar, começaram a roubar e traficar drogas.

Esses são apenas alguns dos exemplos de pessoas extremamente qualificadas com quem conversei. Em Atenas há milhares deles. A ajuda vem das centenas de voluntários independentes como nós e das diversas ONG’s que atuam por lá, que tentam trazer um pouco da dignidade e do senso de pertencimento de volta a essas pessoas.

Menino refugiado em Atenas

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