The Killing Fields, S-21 e o Khmer Vermelho

por | jan 4, 2017

Um relato dos terrores que o povo do Camboja viveu há 40 anos, durante o regime ditatorial comunista de Pol Pot. 

As borboletas voando sobre o gramado extenso e bem cuidado, numa aparente paz, escondiam os terríveis relatos do povo do Camboja que ouviríamos a seguir. No áudio guide, uma voz doce, característica marcante do povo do Camboja, revelava as atrocidades vividas no local. As lágrimas caiam mesmo que eu as tentasse segurar e era necessário interromper a gravação pra respirar fundo algumas vezes.

Choeung Ek ou Killing Fields é um dos inúmeros campos de extermínio do Camboja. Fica nos arredores de Phnom Pehn, a capital do país. Um país cujo 95% da população é budista e cuja esta mesma população foi dizimada pelo regime Khmer Vermelho.

Killing Fieldas em Phnom Pehn, Camboja

Entre 1975 e 79, pelo menos 1,7 milhões de cambojanos foram exterminados pelo regime ditatorial comunista, liderado por Pol Pot. Os números variam, mas, segundo a Unicef, eles podem chegar a 3 milhões, se incluirmos as mortes causadas por doenças e pela fome.

Quando Pol Pot tomou o Camboja, em 1975, e se alinhou ao Vietnam do Norte e aos Viet Cong, expulsando as forças americanas anti-comunistas que bombardearam o país por anos, muitas pessoas acreditavam que o regime Khmer Vermelho iria libertá-los das atuais guerras que travavam com Estados Unidos.

Por acreditarem que sua nacionalidade, etnia e religião serviriam como proteção, muitos cambojanos retornaram ao país por patriotismo, atrás da promessa de um país socialista. Eles jamais poderiam imaginar que seriam mortos por seus próprios compatriotas.

Killing Fieldas em Phnom Pehn, Camboja

Pol Pot tentou estabelecer uma sociedade agrária e sem classe, decretando o ano zero. Religião, dinheiro e propriedade privada foram abolidos. As capitais foram evacuadas e seus moradores foram levados à força para os campos de arroz.

Monges, professores e intelectuais foram perseguidos, torturados e mortos. O simples fato de se falar outra língua, de usar óculos ou qualquer suposta ligação com o governo anterior ou com governos internacionais era motivo para morte. Era o começo da escravização e extermínio em massa, que custou a vida de 1/3 da população do país.

Nos campos de extermínio, como o The Killing Fields, os presos eram obrigados a cavar suas próprias covas e as formas de assassinato eram as mais brutais possíveis. Balas de revolver eram muito caras, então eles eram envenenados, furados com estacas, cortados com pedaços de plantas.

Homens, mulheres, jovens, adultos, velhos, ninguém escapava. Mas o mais brutal eram os bebês e crianças, que morriam tendo seus crânios estraçalhados no que hoje se chama a Árvore da Morte. Morriam para que não houvesse nenhum tipo de vingança futura.

Killing Fieldas em Phnom Pehn, Camboja

O memorial The Killing Fields foi fundado por uma das sobreviventes do regime Khmer Vermelho, Dara Duong. Fragmentos de ossos, roupas e dentes encontrados foram separados por sexo, idade e tipo de morte e expostos na grande torre de vidro, para que o povo jamais se esqueça das barbaridades de um dos regimes mais extremistas que já existiu.

Killing Fieldas em Phnom Pehn, Camboja Killing Fieldas em Phnom Pehn, Camboja

 

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a prisão S-21 

Os campos de extermínio eram a última parada dos presos. Antes de chegarem lá, a maioria passava alguns meses em prisões como a S-21, uma antiga escola que foi transformada em prisão, bem no centro de Phnom Pehn, capital do Camboja.

As salas de aula foram transformadas em celas de tortura, que variavam de 1 m² para 4 presos ou 6m² para 20 a 30 presos. As varandas eram fechadas com arame farpado, para evitar que os presos fugissem ou se suicidassem pulando do prédio.

Museu Tuol Sleng, S21, Phnom Pehn, Camboja

Museu Tuol Sleng, S21, Phnom Pehn, Camboja

Os prisioneiros eram fotografados e obrigados a assinar declarações falsas. Ficavam amarrados com correntes e barras de ferro nos pés e nas mãos 24 horas por dia. Eram obrigados a dormir no chão e passavam por várias inspeções diárias, geralmente sendo humilhados.

Os banhos eram coletivos e geralmente só aconteciam a cada 3 dias, por um curto período de tempo. A falta de higiene causou inúmeras doenças e centenas de mortes.

Afogamento, remoção de unhas, remoção da pele de algumas partes do corpo, estupros, mutilação nas genitálias e nos seios eram torturas comuns. A maioria dos presos morria ainda durante as torturas, mas os oficiais não eram encorajados a matá-los, já que o Khmer Vermelho precisava de suas confissões.

Museu Tuol Sleng, S21, Phnom Pehn, Camboja

A S-21 foi a principal instituição de segurança do regime e servia para proteger o Angkar (cúpula do Khmer Vermelho). Quando as tropas vietnamitas tomaram Phnon Penh em 1979 e expulsaram o partido comunista, eles encontraram apenas 11 corpos acorrentados às camas da prisão S-21 e um corpo no jardim central. Esses corpos estão enterrados lá, como forma de homenagem aos que ali passaram.

Hoje, o local é o Museu Tuol Sleng. Os quatro prédios foram mantidos quase intactos e tudo está bem registrado, inclusive as fotos e pinturas com os corpos das vítimas. A carga emocional é gigantesca.

Museu Tuol Sleng, S21, Phnom Pehn, Camboja

O Camboja ainda é considerado um dos países mais pobres do sudeste asiático e não há uma sensação plena de mudança do regime. Hun Sem, primeiro ministro do país há quase 30 anos, é um antigo líder e dissidente do khmer Vermelho, que se apresenta como um homem necessário para prevenir um retorno a era das atrocidades.

Ainda assim, a boa energia que o país emite consegue ser maior do que as lembranças de guerra. Um país repleto de sorrisos e de uma doçura que ainda não encontrei em nenhum outro lugar do mundo.

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